sábado, 9 de julho de 2016

As lembranças de "As armas secretas"


Um dia abri o Facebook e tinha um post de uma amiga se desfazendo de uns livros. Na lista, muitos títulos que estavam na minha lista de desejos. Entre eles, As Armas Secretas, livro que li na época da faculdade, xerocado ou emprestado da biblioteca. Quando pensei que poderia ter "aquela" edição, e não novas, pedi na hora.

Não é todo mundo que entende isso, mas eu sou apaixonada por livros - e não apenas pelo seu conteúdo. Sou apaixonada pelo objeto que eles são, pela memória que me trazem, pela história que contam. E "aquela"edição - que agora é minha, obrigada, Cris! - me trazia uma memória muito bonita, de um tempo muito feliz e importante para a minha vida.

Até que eu o abri para reler. Antes mesmo de começar, já me peguei emocionada por uma memória. Na primeira página do livro, a marca em relevo da Livraria Belas Artes, aquele lugar lindo que não existe mais do lado do cinema, onde passei tantas horas, onde gastei tanta conversa. Não é um carimbo, é um relevo, de que meus dedos sentiam saudade sem saber, porque fazia tempo que eu não abria um livro comprado lá.

Depois, foi a vez da orelha do Davi Arrigucci Jr, o primeiro texto dele que li na vida, e que me fez comprar alguns livros que ele escreveu, cujas ideias de certa forma me ajudaram a moldar a maneira como entendo literatura. Eu já sabia o que estava escrito ali, mas eu reli. Até que o texto chegou na metade, eu tive de ir para a última página, para terminar de ler a orelha. E aí, um detalhe de que eu não me lembrava roubou minha atenção:


Entre outras efemérides, lá estavam: "ANO DA XIII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO", centenário da morte de Robert Louis Stevenson, cinqüentenário do lançamento de O pequeno príncipe, 62º aniversário desta Casa de livros, fundada em 29.11.1931.

Cuidados, delicadezas e lembranças cada vez mais raras de serem vistas.

Pouco mais de vinte anos que me lembram que sim, tudo são coisas do século passado. E eu nem comecei a ler o livro.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Recomeço


"Minha liberdade é escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo" - Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo, p. 101

- O que você vai ser quando crescer?
- Escritora

O tempo passou, virei jornalista, parei de escrever poesia, criei um blog, larguei.

Mas não posso largar.

Vou começar de novo, diariamente. Até me tornar o sonho que quis ser.

Volto hoje, dia de dor, de medo, de insegurança. Dor na boca pelo aparelho, dor na alma pelo medo de perder um cliente.

E sigo, com dor mesmo, olhando a parede-lousa do meu escritório, com a citação de Clarice debaixo da frase que aprendi num desses aplicativos de meditação que venho usando:

REMEMBER BLUE SKY

No canto, os ganchos onde penduro roupas pedem: +CORAGEM

Uma hora, as nuvens se dissipam.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Poeira de estrela

Hoje, quando o Darcio foi me acordar de manhã, além do beijo de bom dia, ele me disse, à queima-roupa:

- Uma notícia triste: David Bowie morreu.

Fiquei chocada na hora.

Não porque eu fosse a maior fã de Bowie, mas porque era uma fã, sim. Porque eu, o Darcio e a Gabi vivíamos falando que se ele voltasse a fazer show, mas não viesse ao Brasil, iríamos correr o mundo atrás dele, para vê-lo, ouvi-lo.

Agora não vamos mais.

Conheci Bowie tardiamente, lá pelos 17 ou 18. Foi o Darcio quem me apresentou à obra do camaleão. Logo, ouvi "Heroes". Logo, aquela se tornou uma das músicas mais lindas e importantes da minha vida. E quanto mais velha fico, mais eu gosto de Bowie. Porque ele é muito à frente do tempo dele. Do meu tempo. Ele é genial. E, como disse a Lu, é uma honra ser contemporânea de um gênio.

Sexta-feira, apenas três dias atrás, no dia em que completou 69 anos, ele lançava BlackStar. Nem tive tempo de ouvir ainda. Mas li uma crítica, na sexta mesmo, dizendo que era um disco que parecia ser um renascimento, uma nova fase, em que Bowie convocava os fãs a entenderem que sua arte era possível sem sua presença física; que aquele disco era o começo de uma nova fase para Bowie, que ele estava novamente mirando um futuro ainda distante para nós, que ele estava criando, de novo, algo muito novo.  O autor do texto se referia à sonoridade inovadora do álbum, ao fato de sua presença pública ser cada vez mais rara; e de ele não fazer mais shows.

Hoje soubemos que BlackStar era, para além disso, um aviso de morte. Como foi o acústico do Nirvana em que Kurt Cobain cantou "The Man Who Sold The World". Mas ao contrário do jovem músico, Bowie preferiu se despedir com a elegância que lhe era peculiar: sofrendo recluso, sem se expôr no mundo escancarado e sem privacidade das redes sociais. Continuou, até o fim da vida, fiel a ideais que o deixavam livre para criticar o que não concordava, cantando, dignamente, Fame, (fame) puts you there where things are hollow.

Porque a questão, para Bowie, não era fama. A questão era e, ainda é, arte. E é por isso que seu legado é eterno. He'd really made the grade. E é por isso que as estrelas vão estar diferentes hoje à noite.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Precisamos falar sobre a Coreia do Norte

A Coreia do Norte é um lugar muito, muito distante. Mas ao contrário de Tatooine ou Jakku, é um lugar real, onde vive parte dos 7 bilhões de pessoas da mesma espécie que eu. Então, sempre tive a sensação de que eu deveria conhecer a Coreia do Norte.

Mas pouco se fala sobre esse lugar. Quando era pequena, conheci as Malvinas, Irã, Iraque, Irlanda do Norte e muitos outros lugares por causa de notícias sobre guerra. Pré-adolescente, conheci Cuba por causa de sua ditadura. Mas nunca, nunca, vi reportagens suficientes sobre a Coreia do Norte para que entendesse e conhecesse mais aquele lugar. Ouvi o pai de Kevin Arnold falar sobre a Guerra da Coreia, mas pouco além disso.

Já adulta, entendi as razões pelas quais não tinha acesso a informações sobre a Coreia do Norte: sua ditadura, seu isolamento comercial, as implicações geográficas, econômicas, políticas e estratégicas de falar sobre esse lugar.

A mídia, em geral, quando fala da Coreia do Norte, fala de uma maneira jocosa, em tom de piada. Diz que o povo norte-coreano acredita que o hambúrguer foi inventado por Kim-Jong-Il; noticia que a Disney notificou Kim-Jong-un pela utilização pirata da imagem de Mickey Mouse; que o ditador declarou ter feito testes com a bomba H, mas que os analistas especializados duvidam.

E eu pergunto: e daí? O que isso quer dizer? Que tipo de conhecimento isso agrega? A Coreia do Norte é um país fechado por sua ditadura, e por isso temos poucas informações a respeito. Quase nada vaza (ou será que não é interessante para a grande mídia fazer um esforço para vazar e divulgar informações?). E, quanto mais mistério, mais eu fico intrigada.

Até que hoje, me deparei com esse vídeo:


Nele, a garota diz, emocionada, que a primeira coisa que devemos fazer para tentar ajudar é educar-se para aumentar a conscientização sobre a crise dos direitos humanos na Coreia do Norte. Eu ainda não sei nada a respeito. Mas estou incomodada o suficiente para ter uma certeza: Precisamos falar sobre a Coreia do Norte.




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Uma década de tradição de Natal


Na minha família, não temos muitas tradições, objetos passados de mãe para filha, coisas que tenham história e raiz. Mas tem uma coisa que dá orgulho: o Natal.

Natal, normalmente, pelo que me dizem, é uma festa "obrigatória" de família; um momento em que as pessoas "precisam" ou "devem" ficar junto dos seus. Nas redes sociais, pipocam piadinhas de que Natal é tempo de desejar o melhor para gente que mal falou com você durante o ano todo; época de responder a perguntas indesejadas de parentes ausentes.

Na minha família, não é assim. A gente espera pelo Natal, a gente gosta de se reunir, de fazer farra, de cozinhar muito, de comer crústole (uma receita que passou da minha avó para minhas tias e que na nossa família só se come no Natal), de lavar muita louça, de cantar, de rezar ao redor da ceia, de receber os amigos queridos, de acolher os "desgarrados" sem festa, de jogar vídeogame, de ver fotos antigas, de receber o Papai Noel.

O Natal na minha família é tempo de abraços sinceros, risadas desbragadas, lágrimas emocionadas, orações, música e muita, muita gente junta. Mas, estranhamente, nunca pensei nisso como uma tradição.

Para mim, a verdadeira e singular tradição do Natal na minha família nasceu em 2004. Naquele ano - meu avô já havia morrido e não viveu para ver - minha tia Nori deu de presente para cada família um pequeno anjo de resina transparente para pendurar na árvore de Natal. Todas as árvores teriam aquele anjo igual dali em diante.

Não sei como, a ideia pegou. Em 2005, todo mundo apareceu na festa de natal com um presente para a árvore das famílias. Eu, que já era casada, tenho a sorte de ter todos os presentes, desde o primeiro, na minha árvore. Neste ano, a Gabi, que foi morar sozinha, distribuiu pela primeira vez o enfeite dela para as famílias. E foi lindo ver tudo se multiplicar mais uma vez.

Atualmente, como minha árvore de Natal é pequena - porque o apartamento é pequeno - só tenho esses enfeites nela. Bolinhas normais já foram abolidas.

Então, todos os anos, quando montamos a árvore de Natal, eu e o Darcio fazemos disso um ritual. Sentamos com calma, enfeitamos com carinho cada galho, lembrando da história de cada enfeite e de cada pessoa que nos presenteou com anjos, sininhos, nossas-senhoras, tamborzinhos, papais-noéis, bolinhas, estrelas, pinhas, mini-presépios e até um buda de tecido. Nesse momento, a gente pára para refletir o quanto somos felizes, e como é grande a nossa riqueza. É o momento do ano em que nos lembramos de cada pessoa que está ao nosso lado. Depois, com a árvore montada, rezamos. Em agradecimento ao ano que passou, para pedir por nós e por cada pessoa, representada naqueles presentes, para o ano que virá.

*A foto é da árvore aqui de casa, já com os enfeites recebidos neste ano.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade limitada não é liberdade

Adoraria começar o ano dizendo "Feliz 2015!". Mas hoje é dia 7 de janeiro e, parodiando uma velha música punk, "Paris is burning". Terroristas mataram 12 pessoas, entre elas, cartunistas do Charlie Hebdo.

Teoricamente, até onde eu entendo - porque eu NÃO consigo entender uma pessoa que mata a outra - essas pessoas foram mortas porque fizeram piada com a fé alheia. O que me deixa chocada é essa ânsia de calar o outro, metafórica e, neste caso, literalmente, apenas por discordar. Se você tem fé de verdade em uma coisa (uma pedra, um deus, um oráculo), você realmente acha que é relevante se alguém fizer uma piada sobre aquilo? Sua fé vai diminuir porque alguém fez uma piada a respeito? Se diminuir, é porque não é fé.

O patrulhamento ideológico esgarçado do "politicamente correto" sempre me irritou.  Não acho certo proibir o humorista X ou Y de chegar perto da celebridade A ou B porque ele fez uma piada sobre ela em seu programa. Se você se sentiu ofendido, busque seus direitos, a retratação pública, se for o caso. Mas proibir, manter afastado ou matar não creio que sejam saídas civilizadas.

Agora, a liberdade de expressão está posta em xeque mais uma vez. Censura é censura, desde o empastelamento de jornais de esquerda, como o Pasquim, até o assassinato das pessoas que trabalhavam no Charlie Hebdo.

E pior: vi gente dizendo "bem feito" para os cartunistas que perderam a vida. Vi gente dizendo: "está errado, mas os cartunistas procuraram sarna para se coçar quando publicaram a charge". Nesse caso, penso eu, não há espaço para "MAS". Não há adversativa possível no terreno da intolerância, do radicalismo. Intolerância e radicalismo  são a porta de entrada para o terror.

E, hoje, o terror ameaça gravemente a liberdade de expressão.

Atualização em 08/01/2015
Desde ontem, várias manifestações pelo mundo têm acontecido em solidariedade às vítimas da barbárie. O presidente francês pediu "unidade" à Nação. Acima de tudo, é preciso ter consciência de que não se pode entrar numa luta contra uma religião, um povo ou uma nacionalidade. Esse crime horrendo foi praticado por um grupo de pessoas, mas o grupo não representa o todo. Excluir e preconceituar também são ferramentas de um discurso de ódio. E, agora, tudo o que mais precisamos é amor.

domingo, 9 de novembro de 2014

As origens de uma escolha

Assisto na TV um programa sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Na minha memória, a queda aconteceu na faixa dos 14 anos - que completei em maio de 90. Tenho um especial carinho por esse assunto. Ele é a primeira razão que registro para que eu conscientemente escolhesse minha profissão.

Por razões quase pueris, eu acompanhava, dentro dos limites da minha pouca idade, muitos assuntos de política externa. Primeiro, a política de Thatcher, de quem ouvi falar pela primeira vez quando Diana se casou com Charles. Eu tinha cinco anos e achei impressionante que houvesse uma princesa de verdade, com um vestido tão lindo e imenso; e uma rainha de verdade, com coroa e manto. Depois, os recortes de jornal sobre o IRA, por causa das músicas do U2. Então, vieram a Perestroika, a Glasnost e a Queda do Muro.

Então, em 1989, eu vi Silio Boccanera e um jovem Pedro Bial cobrindo o que identifiquei  como realmente um momento histórico; um misto de festa e destruição.  Pela primeira vez, em frente à TV, eu sabia que aquilo era "como quando o homem pisou na Lua"; eu sentia ser contemporânea de um momento histórico.

E fiquei fascinada. Fascinada com a possibilidade de ter uma profissão que registrava a matéria-prima para o que seria História; fascinada com a ideia de estar ali tão profundamente ligada ao presente; fascinada com a ideia de ouvir histórias de pessoas que se tornariam os relatos da História; fascinada por ajudar a colocar um tijolo para construir o que permaneceria para sempre; e fascinada com o paradoxo de que, naquela ocasião em particular, "colocar o tijolo" era exatamente mostrar a destruição concreta e real de uma cicatriz que separava um país.

Para mim, na prática, o jornalismo não aconteceu de um jeito tão romântico, nem aventureiro, nem tão ingênuo assim. Desde cedo fui para a área corporativa, cuidar da comunicação que empresas precisam estabelecer com seus clientes, colaboradores, parceiros, fornecedores e com o mercado em geral. Gosto do que faço, gosto do meu trabalho cotidiano.

Mas sempre que penso ou vejo algo sobre a Queda do Muro de Berlim, me sinto de novo com 14 anos; me lembro com carinho e ânimo da beleza, do sonho e da aventura que me fizeram pensar, pela primeira vez, em fazer a escolha que fiz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Além da razão

Terminei neste fim de semana de ler "Morangos Mofados" (Caio Fernando Abreu). A primeira vez que li esse livro foi em 1996 e, na época, ele não me pareceu nada demais. Mas, agora, na releitura, ele me "pegou" e achei-o muito mais incrível que da primeira vez.

Foi uma leitura de (re)descoberta, daquelas que a gente faz aos poucos, a conta-gotas, para que o livro não acabe. Fiquei "morando" no livro, como disse um amigo. Fiquei querendo decorar os trechos, para depois me lembrar deles, para, de alguma forma, represar aquele encantamento, aquele primeiro impacto, aquele maravilhamento que a leitura me causou.

Fiquei procurando razões racionais. A voz narrativa de "Morangos Mofados" é muito poderosa. A literatura confessional cola o narrador ao ouvido do leitor. Eles trocam segredos, confissões, cartas. Eles se identificam nas fragilidades, nas transgressões, nos desejos, nos sonhos irrealizados. Mas isso é o racional.

O que me aconteceu - e foi inédito numa releitura - foi esse livro me pegar bem pelas entranhas.Foi ele ter-me tocado a alma, foi ter-me agitado o espírito e acendido o olhar para recantos algo adormecidos.

Ali, escritas, experiências tão diversas das minhas experiências, de repente faziam um sentido transcendente para mim. De repente significavam algo que eu ainda não consegui decifrar completamente.

"Morangos Mofados" me pegou de assalto e eu ainda não sei bem o porquê. Ele tocou em mim em algo para além das explicações racionais. Por isso, talvez, deem a isso o nome de arte. Foi para mim uma epifania. Como dizem os franceses, étonnant.

sábado, 13 de setembro de 2014

Cada livro tem duas histórias

Fui desafiada por amigos leitores compulsivos e vorazes a participar de uma troca de livros. O termo "desafio" é por minha conta. Na verdade, é só uma brincadeira, um convite, um jeito de trocar paixões: livros que não fazem mais sentido para você e podem fazer sentido para outra pessoa.  E esse "sentido" pode ter várias interpretações: pode ser algo que você estudou e já não estuda mais, uma edição antiga que você já atualizou, um livro que já não te diz mais nada.

Olhei as estantes em busca de algo. E foi aí que me descobri possessiva e ciumenta (não que eu não soubesse dessa minha característica antes, mas ficou isso patente naquele momento). E foi aí que descobri que, para mim, cada livro não conta apenas uma história, conta duas: a história que nele está escrita e a história dele comigo.

Comecei pelo óbvio: livros que não faziam mais sentido para mim, que ocupavam lugar de outros que poderiam chegar. E constatei, atônita, que cada livro tem um lugar nas estantes que o acomoda tão bem que dali ele não precisa ser retirado mais. Mas venci esse primeiro sentimento e tomei a iniciativa de tirá-los dali.

Passei os olhos: um por um, contavam uma história de um pedaço da minha vida. O primeiro livro que li sem figuras, ainda criança, com 6 anos de idade; o livro que foi assunto da minha primeira resenha numa revista de cultura; a pequena coleção dos "Livros do Mal", que revelou escritores que admiro muito, como Daniel Galera; livros que trouxe de viagens que fiz; livros que li na graduação e que marcaram minha vida; livros que li para a minha dissertação; livros que arrematei de uma biblioteca particular que doara volumes para ajudar uma instituição beneficente; livros que ainda não li e livros que já reli muitas vezes.

Descobri, com pasmo, que conheço essa segunda história de quase todos os livros de minha estante. Descobri que eles contam partes da minha vida que não estão em diários e que achei que estariam esquecidas, como a grande parte das histórias cotidianas, mas não estão. Descobri que seria muito difícil me apartar deles.

Foi uma viagem afetiva. E, ao final dela, consegui selecionar cinco. Cinco livros que agora terão três histórias: a que trazem impressa, a minha e a de quem os quiser receber.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Da porta para fora, silêncio

Às vezes, tem tanta coisa acontecendo dentro da gente que é preciso calar o exterior para ouvir o íntimo.
Às vezes, o mundo interno impõe tantos desafios que o mundo externo fica simplesmente empalidecido.
Às vezes, as letras minúsculas se acumulam tanto que torna-se maiúsculo ordená-las.
Às vezes, a superfície é plácida porque não enxergamos o fundo.
Às vezes, é preciso reprogramar o código-fonte.
Às vezes, a gente não sabe por onde começar.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Acerca de uma frase de Ana C.

Naufragamos cotidianamente, afogamo-nos na imensa tarefa de sobreviver. Esquecemos de olhar ao redor. E a imensidão torna-se um aquário, translúcido e calmo, que cabe na palma da mão, no enquadramento míope e desfocado da rotina, até que a poesia nos faça emergir.

Alaguemo-nos de vida. Que possamos nos perder na imensidão e alargar as fronteiras desse pequeno vaso de cristal.

***

""É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço." (Ana C.)


terça-feira, 6 de maio de 2014

Alienando?

Saiu no jornal e virou assunto nas redes sociais a notícia de que O Alienista, de Machado de Assis, será relançado, "simplificado" por uma autora que conseguiu patrocínio via Lei de Incentivo Fiscal. Serão 600 mil exemplares distribuídos gratuitamente pelo Instituto Brasil Leitor.

Confesso que, entre os 10 e 12 anos, li algumas adaptações de clássicos, como Sonho de uma noite de verão. Era a série "Reencontro", da Editora Scipione, neste caso com texto adaptado por Ana Maria Machado. Aliás, para escrever este texto, fui à estante resgatar esse exemplar e vi, na capa, o aviso, em forma de selo: "Obra selecionada para o Programa Sala de Leitura MEC/FAE". Esta edição, em especial, tem um texto honesto sobre a vida e obra do autor, além de uma ilustração bem didática sobre os personagens. É uma adaptação em prosa, o que também facilita a leitura da obra.

Só por isso, já seria incoerente de minha parte dizer-me contra adaptações. Mas acontece que, no caso do livrinho com a adaptação de Shakespeare, a obra foi pensada para ser lida por crianças. A questão é que, se você conhece aos 12 anos uma meia dúzia de histórias clássicas (mesmo que adaptadas), seu repertório se alarga e você ganha background que lhe possibilita - se quiser - encarar os clássicos no original (ou em boas traduções) de peito aberto, sem medo das "dificuldades" que são, muitas vezes, inerentes a obras que estão distantes do tempo e da realidade em que o leitor vive.

Não sou do tipo que acha que "filmes sobre livros perdem a riqueza original da obra". Pode até ser que isso aconteça, mas o fato é que, ao transpôr um livro para o cinema, cria-se outra obra, feita em uma plataforma diferente, que exige outros critérios de análise crítica. Mesmo quando um texto literário vai para o cinema ipsis litteris, ao final o que se tem é outra obra, que não pode, nem deve, em minha opinião, ser julgada com os mesmos critérios estéticos (porque cinema é feito de imagem e som, não só de palavras, para ficar em apenas um argumento básico).

O problema, neste caso que agora gera polêmica, penso, é que parece que o objetivo é "simplificar" a leitura de um clássico para pessoas que já teriam idade e condição de lê-lo no original. Parece-me que exclui-se da cena a figura do professor, que ajudaria o aluno de ensino médio a caminhar por essas veredas áridas e que ocuparia um papel fundamental: o do facilitador, aquele que media a relação entre o aluno e o livro, que apresenta este àquele; que auxilia aquele a decifrar este - gramatical e literariamente.

Pelo que li, a simplificação vai se dar basicamente no âmbito do vocabulário, para ajudar os estudantes a entenderem a "historinha", o enredo do livro. Ora, se o mais importante em um livro fosse a história que se conta, a forma como essa história é contada poderia ser esquecida e, então, só precisaríamos de uma história de cada "plot" (e, nesse cenário absurdo, quem precisaria de Dom Casmurro quando se tem Othelo?)

Transformar versos em prosa, livros em filmes, ou poemas em canções não me parece nenhum problema. Recriar uma obra (e aqui é preciso lembrar o trabalho árduo e muito importante dos tradutores) não é apenas válido, mas louvável em muitos casos.

Penso que a questão que se põe aqui é como usar essa "simplificação". A que ela servirá? A apresentar o enredo de um clássico para estudantes? De que idades? E qual será o papel dos professores, em sala de aula, diante desta adaptação?

Por fim, é sempre bom lembrar que temos todos o direito de saber o que será feito desta simplificação (a palavra foi atribuída à autora em uma entrevista que li). Afinal, ela foi produzida com dinheiro que empresas deixaram de pagar em impostos para o Estado - impostos que deveriam, em tese, beneficiar a todos os cidadãos brasileiros, seja por meio de saúde, educação ou cultura.

sábado, 15 de março de 2014

Origem de uma paixão (melhores momentos)

A pergunta, diagramada num daqueles quadrinhos típicos de Facebook, era: "Qual escritor fez você se apaixonar por literatura?". Poderia parecer simples para alguém que como eu, tem paixão por livros, línguas e literatura. Mas, para meu próprio espanto, não foi simples responder.

O óbvio seria responder "Machado de Assis", tema do meu Mestrado. Só que a verdade é bem mais complexa que o óbvio, tanto na vida real e em suas questões metafísicas quanto numa pergunta aparentemente simples.

O fato é que eu não sei de onde vem essa paixão, essa ânsia, esse tesão por literatura. Por estranho que pareça, a mim parece que essa paixão é construída ao longo de uma história que está longe de terminar, mas que eu não sei onde começou.

Várias vezes, durante minha longa vida de leitora, um livro me arrebatou; alguns autores levo-os no coração e na cabeceira, leio-os, releio-os e sempre me parecem novos. Mas, sim, existem alguns marcos.

Não me esqueço do primeiro "livro de gente grande" que li, aos seis anos de idade: Sandra na Terra do Antes. Eu o chamava assim porque ele não tinha figuras; só texto. Não esqueço de, às escondidas, com uns oito ou nove anos, subir em banquinhos para alcançar nas prateleiras mais altas da estante da sala  livros de Sidney Sheldon, que meus pais diziam que era "livro de adulto". Lia-os na ânsia de descobrir porque eles não eram para minha idade e, logo depois, passei à Agatha Christie. Tudo graças ao Círculo do Livro, uma espécie de clube de vendas por catálogo que fazia os associados realizarem compras mensais de "grande obras da literatura". No colégio, descobri clássicos como José de Alencar e Machado de Assis. Mas não me esqueço mesmo é de Pedro Bandeira e de A Marca de uma Lágrima.

Na adolescência, li Clarice, Pessoa, Machado e Nelson Rodrigues, autores de alguns dos meus livros de cabeceira. A faculdade foi um tempo de ebulição. Descobri muitos autores novos (para mim), como Borges e Cortázar, que até hoje releio: são fundamentais. Caio Fernando Abreu e Leminski, com cujas obras tive contato nessa época, foram reveladores. Nessa época, também, eu decidi estudar francês por causa de um livro que ganhei dos amigos, no meu aniversário de 19 anos: uma edição bilíngue de As flores do mal, que me fascinou. Mas a "formação" de minha paixão não acabou na adolescência. Tardiamente, depois dos 20, descobri Ana Cristina Cesar e acompanhei em "tempo real" - desde a época do CardosOnline - o surgimento de autores que hoje eu adoro, como Daniel Galera.

Por tudo isso, me parece complexo, impossível e injusto dizer que um só autor teria me despertado a paixão pela literatura. Espero que novas descobertas de velhos autores e novos autores estreantes continuem instigando essa minha paixão.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Reencontros

Por diversas razões, tenho pensado muito no tema "reencontros". Não exatamente reencontros com pessoas, mas reencontros com ideias e desejos, aspirações e inspirações.

Neste final de semana que passou, por exemplo, eu me reencontrei com uma canção, Starman. Fui à imperdível exposição sobre David Bowie (em cartaz até 20/4/2014), de quem aprendi a gostar tardiamente, influenciada pelo Darcio Ricca (na época meu namorado; hoje, marido).

O problema é que, quando comecei a gostarde Bowie, já tinha passado os primeiros anos da adolescência ouvindo a versão brasileira de Starman, que o Nenhum de Nós batizara de O Astronauta de Mármore. Sim, Starman é muito mais legal; sim Bowie é um grande artista, absolutamente revolucionário. Mas por alguma razão - talvez a letra difícil, talvez o costume de recorrer à primeira versão que conheci - Starman nunca fora uma canção que me tivesse tocado profundamente.

Até que eu me "reencontrei" com ela na exposição. Não só com ela, mas com a histórica apresentação que Bowie fez no Top of the Pops e com a letra manuscrita pelo próprio autor, rabiscada, editada, repensada por ele. Claro que a exposição ajuda, cria um clima favorável para que você se envolva. E eu realmente  me emocionei.

Ver aquele manuscrito teve o mesmo efeito, em mim, que ver uma obra de arte. Foi como se, antes daquele momento, eu só tivesse ouvido reproduções da obra, que não me deixassem tomar contato com sua aura. E, de repente, eu ressignifiquei Starman. E, como que num passe de mágica, comecei a gostar dessa canção como nunca antes gostara. Eu a reencontrei e a compreendi, como se nunca a tivesse ouvido antes.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Adultecer

Tenho percebido, muito por coisas que acontecem ao meu redor, que tornar-se adulto, crescer, amadurecer e envelhecer são temas muito difíceis de lidar.

Uma menina pergunta se aos vinte anos ela já não estará velha para entrar e encarar o primeiro ano do seu primeiro curso de graduação. Um homem de menos de 40 anos fala com nostalgia dos lugares em que passou a juventude, sem se dar conta que - pensando apenas na expectativa de vida média - ele ainda tem metade de sua vida para viver.  Uma jovem mãe posta numa rede social uma lista de coisas que a "definem" como mãe. E nenhuma delas é sobre o amor ao bebê, mas sim sobre banhos apressados e sobre assistir a desenhos na TV mesmo quando a criança não está ao lado dela.

Tudo isso me faz ficar tomada por uma certa angústia e, por mais que isso, uma dúvida: será obrigatório sentir nostalgia e  melancolia quando o tema é tornar-se adulto?

Quando era criança, eu não via a hora de crescer, para poder fazer o que eu quisesse, para poder levar minha vida como eu achasse melhor. E agora, que tenho condições sociais, financeiras e psíquicas para tal, será obrigatório sentir melancolia?

Pois eu não troco a vida que tenho hoje pela vida que tinha aos 15 anos de idade. E muito menos aos 10, aos 7, aos 5 anos. "Adultecer", para mim, foi muito bom. Mesmo que tenha trazido responsabilidades, trouxe também desejos e prazeres.

Mas fico me perguntando que melancolia é essa, da busca pela madeleine de Proust, dessa evocação e convocação quase mórbida do passado.

Será que não é possível, mesmo a seres humanos adultos, que pagam suas contas e vivem em liberdade, escolherem seus destinos, ou ao menos a forma como vivem? O que os impede?

O que impede uma menina de vinte anos de começar (aqui nem cabe o re-começar)? O que impede um homem de 40 de voltar a andar pelas mesmas alamedas, ainda que elas - e ele -  tenham mudado? O que impede que uma mãe zelosa, de vez em quando, saia para tomar um chopp com as amigas, veja um filme instigante e discuta filosofia?  O que impede uma mulher ou um homem de fazer o que deseja e aquilo que lhe dá prazer, a qualquer momento, em qualquer tempo?

O que (n)os detém?

domingo, 29 de dezembro de 2013

Tarantino e o UFC

Faz pouco tempo, um amigo me chamou a atenção para o fato de eu gostar tanto de filmes do Tarantino, todos tão violentos. "A violência é tão fascinante / E nossas vidas são tão normais", eu poderia ter respondido, citando uma velha canção.

Kill Bill Vol. 1 é meu filme preferido e tenho mesmo uma atração por essa estética que Tarantino imprime em suas obras. Mas a violência que está em Tarantino, assim como a que está em Kubrick (Full Metal Jacket; A Clockwork Orange) é uma manifestação artística.

Essa violência está revestida - e recheada - de sentidos que transbordam a violência per se.  Ela é veículo, manifestação que revela algo que a transcende, que ela própria denuncia, que é seu real motivo de existir: a reflexão sobre algo que está além, que pertence a outra esfera, que não se finda em si.

Não é que Tarantino ou Kubrick justifiquem a violência. Naquele, aliás, ela é "gratuita", exagerada, quase caricata. E é esse tom, borrado de ironia e cinismo (também presente em Kubrick), que leva o espectador a refletir. É isso que exerce atração em mim, é por isso que esse cinema é arte e não realidade: porque não é preciso ir "às vias de fato" -  basta assistir aos filmes. Eles são um "universo protegido", uma ficção que termina quando a luz acende e voltamos para a vida real. Lá exercitamos desejos e emoções que não se podem transpor ou realizar na vida cotidiana.

Talvez seja essa mesma fascinação que sente quem assiste, tarde da noite, as lutas de UFC que agora a TV transmite. Não vou entrar no mérito de discutir se isso é ou não esporte. Mas o fato é que aquilo não é ficção, é realidade. O sangue, as dores, as fraturas, tudo se dá num corpo de carne e osso, de alguém que está ali arriscando sua própria integridade física de verdade.

E é nesse pequeno detalhe que, creio, mora a sordidez dessas lutas - e de quem as assiste. Ainda que os lutadores entrem no ringue espontaneamente, usando de livre arbítrio, simplesmente porque querem e sabendo dos riscos que correm.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Talhe

A busca do inesgotável
A fonte que nunca secará
A palavra que nunca cessará
Todas, muitas, inúmeras, inequívocas, verborrágicas
Inexistentes
Até que o silêncio tome conta da folha de papel
E fique impresso na retina
Até que haja um corte exato, preciso, profundo
E a massa disforme de letras se transforme
Em poesia

(2002/2013)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Você me ouve, Major Tom?

"Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"

É assim que acaba o famoso poema "Mar Português", de Fernando Pessoa, que remete às conquistas marítimas do século XV. E foi nele que pensei quando ontem, no noticiário, vi, maravilhada, que a nave Voyager saiu do sistema solar. 

Obviamente pensei também em "Space Oddity" (que tem esta versão alternativa, gravada in loco). E pensei em quanto o mundo é vasto e em quanto não temos a noção de nosso próprio tamanho. Sair do Sistema Solar! É um feito muito maior do que atravessar o Atlântico, ou que pisar na Lua. Ou talvez seja similar, porque eu não vivi no século XV nem em 1969 pra entender a grandeza dessas coisas que foram feitas naquele tempo durante  aquele tempo.

Mais incrível é pensar que a Voyager conseguiu esse feito há mais de um ano, mas só agora soube-se disso. Parece que o sinal de rádio demora 17 horas para viajar da Voyager à Terra.

É quase inacreditável saber que chegamos tão longe, mesmo com uma mentalidade tão estreita que ainda quer guerra na Síria, que sustenta corrupção e fome, que consome da Terra mais do que ela permite produzir.

Já não cabemos no mundo de Pessoa. As estrelas diferentes de Bowie já não nos bastam. Viajamos rumo ao desconhecido.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Somos tão jovens


Legião Urbana foi a banda da minha adolescência. O primeiro passo de muitas caminhadas musicais e literárias: Mônica gostava de Bandeira e do Bauhaus? Fui ler o primeiro e ouvir os segundos. Na dúvida, também fui ler a respeito da segunda.

A Legião ouvia Gang of Four antes da fama? Eu fui ouvir também. Gravei o videoclipe de “Há tempos” e assistia pausando, anotando o que via na estante que é cenário do clipe na esperança de ter contato com cada detalhe daquele universo: Bob Dylan, Judy Garland, Fernando Pessoa... Aos 13, quando o tempo livre era grande, ocupava-o tentando desvendar cada referência que percebia nas músicas e na história da Legião, que conhecia de cor e salteado, pelas fichas da Bizz, recortes de jornal e revista que eram guardados em pastas.

E foi conhecendo bem essa história que sábado entrei no cinema para assistir “Somos tão jovens”, que conta a “pré-história” da Legião, ainda em Brasília, antes de eles partirem para o Rio, no começo dos 80. Aborto Elétrico, o Trovador Solitário, o começo do Capital Inicial. Filme para fã, conta “mais do mesmo” do que eu já sabia, colando e editando rapidamente informações, com poucas novidades. Mas depois da sessão, vi que o filme agradou não só a fãs como eu, mas também a quem não tinha tanto tempo assim para gastar, ou para quem Legião não era a banda favorita da adolescência.  

Não é um grande filme, mas cumpre seu papel muito bem. A reconstituição de época é bem-feita e as figuras daquela época estão ali: Philippe Seabra, personagem, não precisa abrir a boca para ser reconhecido. Philippe Seabra, ele mesmo, faz uma ponta como personalidade de Patos de Minas, num momento de simpática diversão. Thiago Mendonça fica muito parecido com Renato Russo, a caracterização dos personagens remete bastante às figuras reais. Nicolau Villa-Lobos interpreta o pai. É um filme doce e singelo, sobre um tempo de certa inocência e sonho. E, no final, me emocionou. É, sempre mais do mesmo... não era isso que você queria ouvir (ver)?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Liberdade obrigatória

A questão da homossexualidade tem tomado conta da agenda midiática. Contra e a favor, Feliciano, Bolsonaro, Wyllys, Mercury, Joelma. Entendo que as pessoas têm suas opiniões e crenças pessoais e que cada um faz o que quer da vida se isso não prejudicar o outro.

Essa é a razão pela qual pode, mas não é obrigatório, saltar de paraquedas, imitar a Madonna, praticar yoga, casar virgem, ouvir Ramones, pintar o cabelo, acreditar em Deus, ver novela, ser corinthiano, dar no primeiro encontro, cantar aquela canção do Roberto, rezar pra São Judas Tadeu, tocar violino, ler Paulo Coelho, ir ao cinema, torcer pro Fluminense, fazer plástica, andar de bicicleta, estudar Machado de Assis, usar lente de contato, beber café, fazer tatuagem, falar grego, preferir chocolate a guaraná, jogar Tetris. Essas - e muitas outras - são atividades individuais, que não interferem na vida alheia.

É por isso que eu acho absurda a celeuma que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo está causando. É uma questão de "foro íntimo", no sentido de que, se isso for previsto em lei, não obrigará as pessoas a obedecê-los. Quero dizer, se o casamento entre pessoas do mesmo sexo for previsto em lei, não significa que eu - que tenho um relacionamento de quase 20 anos com um homem que amo - vou ter que casar com outra mulher. Significa, apenas, que será permitido que duas mulheres ou dois homens se casem se eles assim desejarem. E não se trata de casamento religioso, mas civil. Porque o Estado é laico.

Não sou ingênua e sei que a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é simples assim e que envolve pressões fortes de grupos religiosos, preconceitos arraigados, medos inominados. Mas que eu saiba não há lei no Brasil que proíba a prática homossexual. Porque, é claro, para que não se volte à barbárie, a sociedade precisa de leis que a regulem e às quais cabe aos cidadãos obedecer.Ou seja, se for proibido, não pode.

Mas eu continuo achando que, dentro do universo das coisas que "pode", a única coisa que deve ser obrigatória na vida é a liberdade.