Lendo um lindo texto alheio sobre filhos, releituras, cheiro de manhã e Mrs. Dalloway, percebi o quanto este mês foi, para mim, vazio de inspiração. O quanto me deixei entrar na roda viva autômata de trabalhar loucamente enquanto grande parte dos outros descansava, o quanto questões profundas e até metafísicas tiveram de ser substituídas pela vida prática e por resoluções e atitudes pragmáticas, o quanto tive de deixar o "sentir" de lado para "agir". O quanto me esvaziei.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Para o vazio não passar em branco
Hoje está acabando o primeiro mês de 2013. E me dei conta de que ainda não havia postado nada no blog neste ano. Então resolvi postar, a despeito da gripe que me nubla os pensamentos, impulsionada por uma bela reflexão que li no Facebook.
Lendo um lindo texto alheio sobre filhos, releituras, cheiro de manhã e Mrs. Dalloway, percebi o quanto este mês foi, para mim, vazio de inspiração. O quanto me deixei entrar na roda viva autômata de trabalhar loucamente enquanto grande parte dos outros descansava, o quanto questões profundas e até metafísicas tiveram de ser substituídas pela vida prática e por resoluções e atitudes pragmáticas, o quanto tive de deixar o "sentir" de lado para "agir". O quanto me esvaziei.
Não que isso seja ruim. Eventualmente é necessário e bom até. Mas nesse caso, acho que sufoquei coisas que não queria ter sufocado. E hoje me percebo longe de um caminho que queria traçar, sem exercitar o que me é mais caro. Se janeiro está terminando, o ano ainda está começando. E eu acho que o desafio deste 2013, pra mim, será tentar equilibrar desejo, necessidade e vontade. Sem deixar nenhum dos pratinhos estatelar-se no chão.
Lendo um lindo texto alheio sobre filhos, releituras, cheiro de manhã e Mrs. Dalloway, percebi o quanto este mês foi, para mim, vazio de inspiração. O quanto me deixei entrar na roda viva autômata de trabalhar loucamente enquanto grande parte dos outros descansava, o quanto questões profundas e até metafísicas tiveram de ser substituídas pela vida prática e por resoluções e atitudes pragmáticas, o quanto tive de deixar o "sentir" de lado para "agir". O quanto me esvaziei.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Agüentando até 2016
Acabo de ler no jornal que o governo vai adiar a implantação completa e obrigatória acordo ortográfico para 2016. Isso, para mim, significa ter mais alguns anos de uma idéia brilhante, tranqüilidades trêmulas, lingüiças mais saborosas, pessoas mais bem-vindas, estréias mais novidadeiras e extrovertidas.
Gosto muito do trema, acho que ele agita a tranqüilidade e nos dá a dimensão de que nada é tão plácido assim. E gosto ainda mais do acento em idéia. O editorzinho de texto do blog já me diz, com minhoquinhas vermelhas, que idéia com acento não é uma boa ideia. Mas eu insisto nela. Não por saudosismo da velha regra, mas simplesmente porque acho-a mais iluminada e criativa do que uma ideia sem acento.
E agora, podemos continuar acertando, se quisermos: agüentar até 2016.
Gosto muito do trema, acho que ele agita a tranqüilidade e nos dá a dimensão de que nada é tão plácido assim. E gosto ainda mais do acento em idéia. O editorzinho de texto do blog já me diz, com minhoquinhas vermelhas, que idéia com acento não é uma boa ideia. Mas eu insisto nela. Não por saudosismo da velha regra, mas simplesmente porque acho-a mais iluminada e criativa do que uma ideia sem acento.
E agora, podemos continuar acertando, se quisermos: agüentar até 2016.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
"Para onde nos atrai o azul?"
Que me desculpem os 2 ou 3 leitores deste blog pela repetição de assunto, mas eu ainda
tenho algumas coisas a dizer sobre o meu salto de paraquedas.
Sempre fiquei muito impressionada com relatos de pessoas que
passaram por momentos difíceis na vida, superando doenças graves, por exemplo. É
recorrente essas pessoas dizerem como essas experiências mudaram suas vidas,
fizeram-nas repensar suas próprias existências, ajudaram a compreender o
“sentido da vida”.
Há um ditado que diz que se a gente não aprende pelo amor,
aprende pela dor. Eu tive a sorte de aprender pelo amor. Não quero dizer que
saltar de paraquedas seja o mesmo que passar por uma experiência grave. Só quem
passa por momentos extremos sabe o que isso significa. Mas o fato é que eu
realmente tive essa sensação, da dimensão imensa do mundo e da pequenez, da
insignificância da gente frente à natureza.
De lá de cima, o mundo é tão imenso, tão lindo, tão
maravilhoso, que a existência se torna pequena, que é possível sentir que você
é apenas parte daquilo tudo. E que se há algo transitório, somos nós, não o
mundo. Fica fácil não se ater a detalhes, a coisas pequenas, supérfluas e
superficiais. Lá em cima, somos tão pequenos e frágeis. Estamos à mercê do
vento, da gravidade. E a natureza quase nos protege, quase nos ameaça. Ela é imensa,
mas não imponente: é simples.
É absurdo nem sentir a queda. Não se sentir caindo é uma
prova de que somos tão pequenos. É poder ficar parado no ar, no silêncio. Como
se não houvesse a passagem do tempo nem a mudança do espaço. Como se não
houvesse som. É uma paz, uma beleza impactante e profunda. E a gente se sente
pequeno. Mas é preciso coragem e ousadia para ir lá experimentar. É preciso
grandeza de espírito para provar a irrelevância do corpo, para se imiscuir com
o mundo, para se jogar no nada sem rede de proteção, esperando que o paraquedas
abra para poder apreciar a vista – e a vida.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
A Renata caiu do céu!
Nem me lembro quando a vontade surgiu. Eu devia ter uns 19 anos. Talvez tenha sido por causa de um projeto, ainda no primeiro ano de faculdade, que me fez descobrir isso. Também não sei dizer por que demorei tanto pra realizar esse desejo. Mas a verdade é que, quando a gente cultiva por muito tempo um desejo, quando ele finalmente se realiza, parece ter um gosto ainda mais especial.
Até que uma noite dessas, jantando num mexicano com amigos fraternos muito queridos, veio a ideia, despretensiosa : "vai ter um feriado em novembro, vamos?". "Vamos!", respondi, sem pestanejar. E ficou assim. Sobreveio um tempo de trabalho intenso, de cansaço intenso. E entre emails enviados para um endereço que eu não uso e correria para ir ao banco depositar o valor da reserva, acabou que deu tudo certo. E a gente pegou a estrada, num fim de tarde de sexta feira de céu rosado.
No dia seguinte, cedo, tomamos café da manhã e partimos para a aventura. O céu estava lindo, límpido. Ventava. Cadastro feito, chegava a hora. A ansiedade me acompanhava já há uma semana e o medo já tinha me feito pensar em desistir. Mas eu já estava lá - e não desistiria. O astral estava incrível: todo mundo de bom humor, curtindo muito estar ali, sorriso no rosto. E um frio gelado no estômago. "No dia em que a gente deixar de sentir medo, a gente para de saltar, né, Babu?", pergunta Renan com a câmera em punho.
"O trator é a pior parte", avisaram. Com ele, fomos até a pista de pouso. Dentro do avião, todos sentados no chão, entre as pernas uns dos outros. O primeiro a sair era profissional, havia parado por um problema no fêmur, estava voltando naquele exato dia. E chegou a minha vez. A porta se abriu. Cabeça para cima, aqueles segundos pareceram horas. Até que Renan disse "Hey, ho". E nós fomos. 45 segundos a 10m/s2. Queda livre. Não há tempo de pensar em nada, ou em quase nada : "Onde estão minhas pernas? E meus braços?" Eles voavam, desgovernados. O vento no rosto, forte, seco, frio. Quase caótico. Mas antes mesmo de terminar, eu já estava entendendo tudo e com a sensação de querer mais do que só aqueles segundinhos.
Logo, o paraquedas abriu. O tranco me fez subir um pouco, mas logo o mundo parou. O tempo parou, o espaço parou, o silêncio se instalou. E eu já não caia. Eu apenas olhava, maravilhada, o mundo. "Étonnant". A Terra é redonda, dá pra ver no horizonte..."Entende agora porque os passarinhos cantam?", perguntou o Renan. Eu entendi.
Depois de uma curva para a direita, uma rápida aulinha de Geografia: ali é Porto Feliz, mais adiante é Iperó. E a sensação de estar ali, parada no ar, ainda que racionalmente eu soubesse estar caindo, é uma das coisas mais incríveis e indescritíveis que já me aconteceu. "Daqui do céu dá pra ver tudo": não só com os olhos, mas para além deles. Não é uma revelação, é apenas uma sensação de ser tão pequena, e de tudo ser tão lindo e imenso, que prescinde de palavras.
E mesmo que eu sentisse que estava imóvel, eu não estava. Logo, os sete ou oito minutos acabaram. E eu estava de novo em terra firme, com o corpo todo relaxado, com a mente completamente despreocupada e limpa, tendo aprendido que estar no ar é algo que eu quero fazer ainda muitas e muitas vezes.
Até que uma noite dessas, jantando num mexicano com amigos fraternos muito queridos, veio a ideia, despretensiosa : "vai ter um feriado em novembro, vamos?". "Vamos!", respondi, sem pestanejar. E ficou assim. Sobreveio um tempo de trabalho intenso, de cansaço intenso. E entre emails enviados para um endereço que eu não uso e correria para ir ao banco depositar o valor da reserva, acabou que deu tudo certo. E a gente pegou a estrada, num fim de tarde de sexta feira de céu rosado.
No dia seguinte, cedo, tomamos café da manhã e partimos para a aventura. O céu estava lindo, límpido. Ventava. Cadastro feito, chegava a hora. A ansiedade me acompanhava já há uma semana e o medo já tinha me feito pensar em desistir. Mas eu já estava lá - e não desistiria. O astral estava incrível: todo mundo de bom humor, curtindo muito estar ali, sorriso no rosto. E um frio gelado no estômago. "No dia em que a gente deixar de sentir medo, a gente para de saltar, né, Babu?", pergunta Renan com a câmera em punho.
"O trator é a pior parte", avisaram. Com ele, fomos até a pista de pouso. Dentro do avião, todos sentados no chão, entre as pernas uns dos outros. O primeiro a sair era profissional, havia parado por um problema no fêmur, estava voltando naquele exato dia. E chegou a minha vez. A porta se abriu. Cabeça para cima, aqueles segundos pareceram horas. Até que Renan disse "Hey, ho". E nós fomos. 45 segundos a 10m/s2. Queda livre. Não há tempo de pensar em nada, ou em quase nada : "Onde estão minhas pernas? E meus braços?" Eles voavam, desgovernados. O vento no rosto, forte, seco, frio. Quase caótico. Mas antes mesmo de terminar, eu já estava entendendo tudo e com a sensação de querer mais do que só aqueles segundinhos.
Logo, o paraquedas abriu. O tranco me fez subir um pouco, mas logo o mundo parou. O tempo parou, o espaço parou, o silêncio se instalou. E eu já não caia. Eu apenas olhava, maravilhada, o mundo. "Étonnant". A Terra é redonda, dá pra ver no horizonte..."Entende agora porque os passarinhos cantam?", perguntou o Renan. Eu entendi.
Depois de uma curva para a direita, uma rápida aulinha de Geografia: ali é Porto Feliz, mais adiante é Iperó. E a sensação de estar ali, parada no ar, ainda que racionalmente eu soubesse estar caindo, é uma das coisas mais incríveis e indescritíveis que já me aconteceu. "Daqui do céu dá pra ver tudo": não só com os olhos, mas para além deles. Não é uma revelação, é apenas uma sensação de ser tão pequena, e de tudo ser tão lindo e imenso, que prescinde de palavras.
E mesmo que eu sentisse que estava imóvel, eu não estava. Logo, os sete ou oito minutos acabaram. E eu estava de novo em terra firme, com o corpo todo relaxado, com a mente completamente despreocupada e limpa, tendo aprendido que estar no ar é algo que eu quero fazer ainda muitas e muitas vezes.
sábado, 27 de outubro de 2012
Uma questão de tradução
Uma das palavras mais lindas e perturbadoras do francês, para mim, é étonner. A expressão "Je suis étonnée" tem algo de inapreensível, de fugidio, de mágico. Tem um significado para além do que o dicionário consegue dizer: ficar estupefato, perplexo, maravilhado.
Lembro-me perfeitamente de quando descobri o que isso significava e do quanto isso me perturbou, justamente pelo caráter inapreensível dessa significação. Acho que é algo que não pode ser traduzido, como em português é o caso de "luar" ou "saudade". Na aula de francês, o professor pediu que eu desse um exemplo, que foi "En rêvant, je m'étonne" (Ao sonhar, eu me maravilho). E fiquei por muito tempo pensando o quanto essa tradução não era suficiente para traduzir de fato a alma dessa palavra, que talvez seja, para a mim, a mais linda dessa língua que é, em si, linda.
"Étonner" me assombra, me instiga. E eu persigo essa tentativa de captá-la inteira, profundamente. E sei que isso é impossível, porque esse sentimento é da ordem do inominável, do indizível, porque não há palavras que preencham esse significado. Aqui, acho, o significante fala mais.
Entretanto, tenho uma sensação: cada vez que "je m'étonne", eu tenho uma epifania.
Lembro-me perfeitamente de quando descobri o que isso significava e do quanto isso me perturbou, justamente pelo caráter inapreensível dessa significação. Acho que é algo que não pode ser traduzido, como em português é o caso de "luar" ou "saudade". Na aula de francês, o professor pediu que eu desse um exemplo, que foi "En rêvant, je m'étonne" (Ao sonhar, eu me maravilho). E fiquei por muito tempo pensando o quanto essa tradução não era suficiente para traduzir de fato a alma dessa palavra, que talvez seja, para a mim, a mais linda dessa língua que é, em si, linda.
"Étonner" me assombra, me instiga. E eu persigo essa tentativa de captá-la inteira, profundamente. E sei que isso é impossível, porque esse sentimento é da ordem do inominável, do indizível, porque não há palavras que preencham esse significado. Aqui, acho, o significante fala mais.
Entretanto, tenho uma sensação: cada vez que "je m'étonne", eu tenho uma epifania.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
À luz de Clarice
Era fim de tarde de uma sexta feira qualquer. Eu estava mandando o último email da semana quando ouvi um estrondo na rua, seguido de um rápido clarão. Depois, tudo se apagou: meu computador, a lâmpada do escritório, o som do rádio. Um transformador queimara, a luz acabara.
Ainda estava escurecendo e no lusco-fusco eu ainda distinguia formas, com a ajuda das janelas abertas e da lua cheia que se insinuava. Mas que fazer numa noite de sexta feira às escuras? Sem rádio de pilha, temendo descarregar a bateria do celular, pus-me a ler. Era isso que fazia, criança, quando a luz acabava em casa.
Procurei uma vela, acendi-a com um fósforo. Coloque-a num pires, sobre a mesa de jantar. E saí em busca de um livro. "A Descoberta do Mundo", livro muitas vezes já lido e relido, mas que nunca se esgota: muito apropriado para redescobrir a escuridão e uma situação pela qual eu não passava há anos.
Abri numa página ao acaso: Banhos de mar. Sob a luz quente e hesitante da vela, comecei a ler. "Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo (...). E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria em mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. (...) A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?"
E, então, Clarice iluminou minha escuridão.
Ainda estava escurecendo e no lusco-fusco eu ainda distinguia formas, com a ajuda das janelas abertas e da lua cheia que se insinuava. Mas que fazer numa noite de sexta feira às escuras? Sem rádio de pilha, temendo descarregar a bateria do celular, pus-me a ler. Era isso que fazia, criança, quando a luz acabava em casa.
Procurei uma vela, acendi-a com um fósforo. Coloque-a num pires, sobre a mesa de jantar. E saí em busca de um livro. "A Descoberta do Mundo", livro muitas vezes já lido e relido, mas que nunca se esgota: muito apropriado para redescobrir a escuridão e uma situação pela qual eu não passava há anos.
Abri numa página ao acaso: Banhos de mar. Sob a luz quente e hesitante da vela, comecei a ler. "Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo (...). E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria em mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. (...) A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar?"
E, então, Clarice iluminou minha escuridão.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Alguma coisa está fora da ordem ou eu é que sou alienígena?
Quem me conhece sabe a fobia, o pavor, que tenho de cães, não
importa o tamanho que sejam: pequenos, médios, enormes; bravos ou mansos. Mas
não é porque os temo que não gosto deles. Costumo dizer que nunca tive tempo
pra gostar ou não, pra estabelecer qualquer empatia com a espécie, simplesmente
porque não consigo conviver com eles. A isso se chama cinofobia: não é
frescura, não é frieza, não é ser desalmado, nem não ter coração.
Acontece que pra mim não dá pra conviver com eles. Não
consigo estar no mesmo ambiente de um cão sem coleira, fico completamente
paralisada de medo. E acontece também
que, cada vez mais, algumas pessoas acham que bichos são gente. Algumas
preferem bicho a gente, outras dizem isso com orgulho(!).
Nada contra bichos. Aliás, tudo a favor disso: adoro gatos,
passarinhos, corujas, peixinhos, serpentes, calopsitas e todos os outros que
possam ser de estimação. Mas não dá pra acreditar que tem gente que os trate
como gente.
Outro dia, vi duas mulheres – provavelmente mãe e filha –
dentro de uma livraria com seus respectivos cãezinhos no colo. Porque levar um
cão numa livraria que fica dentro de um shopping? Juro que me deu vontade de ir
até elas e perguntar com que idade eles tinham aprendido a ler, se preferiam
Drummond a Bukowski. Mas guardei meus pensamentos e me certifiquei de estar a
uma distância segura caso elas soltassem os bichinhos no chão.
Tem gente que chama os bichinhos de “filhos” e dorme com
eles – o que parece que é cada vez mais normal e aceitável socialmente –,
outros que fazem festa de aniversário e “noivado” (quando eles vão cruzar), dão
chupeta, oferecem doces criados especialmente para eles: chocolate, panetone,
biscoito. Eu não entendo isso. Se um bicho é um bicho, deveria ser tratado como
tal. Bem-tratado como tal, aliás. Porque
imagino que esses “doces para bicho” devem fazer mal ao organismo de animais
que, desde sempre, se alimentavam de outras coisas.
Sei que talvez eu arrume muita encrenca expondo esta minha
opinião, mas o que eu acho é que “alguma coisa está fora da ordem”. Pessoas
levam seus animais de estimação a passear no shopping, a festas de aniversários
de humanos, a livrarias e até à casa de outras pessoas para “visitar”. Isso sem
falar nas pessoas que deixam seus cães saírem para passear sozinhos, sem
coleira; ou aqueles que tiram a coleira durante o passeio porque o animal
precisa de “liberdade” para fazer suas necessidades fisiológicas. Para além de
ser proibido – há uma Lei
Municipal sobre isso – esse comportamento põe em risco o próprio animal
(que pode vir a ser atacado por outro ou mesmo atropelado) e os passantes. Por
mais que um bichinho seja manso, ninguém garante que ele não possa ter uma
reação inesperada, não por agressividade, necessariamente, mas até por medo (e
por medo de quem expressa medo por eles).
Eu acho que as pessoas que gostam de bichos devem ter
animais de estimação, sim. Mas também acho que o espaço público, onde se
constrói a sociedade – que é humana – deve ser respeitado. Passeie com seu
animalzinho na coleira, não o deixe solto na rua, onde é proibido. Não o leve a
lugares públicos: casa de amigos e parentes, festas, shoppings, livrarias e
restaurantes são lugares para sociabilizar apenas uma espécie, o bicho homem.
Cuide da alimentação dele: dê ração e outros alimentos
apropriados; vacine, dê carinho e afeto. Mas trate seu animal de estimação como
tal. Porque as outras pessoas não têm a obrigação de ficarem expostas ao seu
animal: seja ele um cão, um gato ou uma serpente.
Tenho a impressão de que as pessoas deveriam pensar em
preferir gente a bichos. Em vez de humanizar seus animais de estimação,
deveriam se importar mais com seus semelhantes. E não deveriam substituir o
contato com humanos pelo contato com animais. Afinal, se não pudermos confiar
na nossa própria espécie, que será de nós? Bicho é bicho; gente é gente. Ou eu
é que sou alienígena?
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