Por diversas razões, tenho pensado muito no tema "reencontros". Não exatamente reencontros com pessoas, mas reencontros com ideias e desejos, aspirações e inspirações.
Neste final de semana que passou, por exemplo, eu me reencontrei com uma canção, Starman. Fui à imperdível exposição sobre David Bowie (em cartaz até 20/4/2014), de quem aprendi a gostar tardiamente, influenciada pelo Darcio Ricca (na época meu namorado; hoje, marido).
O problema é que, quando comecei a gostarde Bowie, já tinha passado os primeiros anos da adolescência ouvindo a versão brasileira de Starman, que o Nenhum de Nós batizara de O Astronauta de Mármore. Sim, Starman é muito mais legal; sim Bowie é um grande artista, absolutamente revolucionário. Mas por alguma razão - talvez a letra difícil, talvez o costume de recorrer à primeira versão que conheci - Starman nunca fora uma canção que me tivesse tocado profundamente.
Até que eu me "reencontrei" com ela na exposição. Não só com ela, mas com a histórica apresentação que Bowie fez no Top of the Pops e com a letra manuscrita pelo próprio autor, rabiscada, editada, repensada por ele. Claro que a exposição ajuda, cria um clima favorável para que você se envolva. E eu realmente me emocionei.
Ver aquele manuscrito teve o mesmo efeito, em mim, que ver uma obra de arte. Foi como se, antes daquele momento, eu só tivesse ouvido reproduções da obra, que não me deixassem tomar contato com sua aura. E, de repente, eu ressignifiquei Starman. E, como que num passe de mágica, comecei a gostar dessa canção como nunca antes gostara. Eu a reencontrei e a compreendi, como se nunca a tivesse ouvido antes.
segunda-feira, 10 de março de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Adultecer
Tenho percebido, muito por coisas que acontecem ao meu redor, que tornar-se adulto, crescer, amadurecer e envelhecer são temas muito difíceis de lidar.
Uma menina pergunta se aos vinte anos ela já não estará velha para entrar e encarar o primeiro ano do seu primeiro curso de graduação. Um homem de menos de 40 anos fala com nostalgia dos lugares em que passou a juventude, sem se dar conta que - pensando apenas na expectativa de vida média - ele ainda tem metade de sua vida para viver. Uma jovem mãe posta numa rede social uma lista de coisas que a "definem" como mãe. E nenhuma delas é sobre o amor ao bebê, mas sim sobre banhos apressados e sobre assistir a desenhos na TV mesmo quando a criança não está ao lado dela.
Tudo isso me faz ficar tomada por uma certa angústia e, por mais que isso, uma dúvida: será obrigatório sentir nostalgia e melancolia quando o tema é tornar-se adulto?
Quando era criança, eu não via a hora de crescer, para poder fazer o que eu quisesse, para poder levar minha vida como eu achasse melhor. E agora, que tenho condições sociais, financeiras e psíquicas para tal, será obrigatório sentir melancolia?
Pois eu não troco a vida que tenho hoje pela vida que tinha aos 15 anos de idade. E muito menos aos 10, aos 7, aos 5 anos. "Adultecer", para mim, foi muito bom. Mesmo que tenha trazido responsabilidades, trouxe também desejos e prazeres.
Mas fico me perguntando que melancolia é essa, da busca pela madeleine de Proust, dessa evocação e convocação quase mórbida do passado.
Será que não é possível, mesmo a seres humanos adultos, que pagam suas contas e vivem em liberdade, escolherem seus destinos, ou ao menos a forma como vivem? O que os impede?
O que impede uma menina de vinte anos de começar (aqui nem cabe o re-começar)? O que impede um homem de 40 de voltar a andar pelas mesmas alamedas, ainda que elas - e ele - tenham mudado? O que impede que uma mãe zelosa, de vez em quando, saia para tomar um chopp com as amigas, veja um filme instigante e discuta filosofia? O que impede uma mulher ou um homem de fazer o que deseja e aquilo que lhe dá prazer, a qualquer momento, em qualquer tempo?
O que (n)os detém?
Uma menina pergunta se aos vinte anos ela já não estará velha para entrar e encarar o primeiro ano do seu primeiro curso de graduação. Um homem de menos de 40 anos fala com nostalgia dos lugares em que passou a juventude, sem se dar conta que - pensando apenas na expectativa de vida média - ele ainda tem metade de sua vida para viver. Uma jovem mãe posta numa rede social uma lista de coisas que a "definem" como mãe. E nenhuma delas é sobre o amor ao bebê, mas sim sobre banhos apressados e sobre assistir a desenhos na TV mesmo quando a criança não está ao lado dela.
Tudo isso me faz ficar tomada por uma certa angústia e, por mais que isso, uma dúvida: será obrigatório sentir nostalgia e melancolia quando o tema é tornar-se adulto?
Quando era criança, eu não via a hora de crescer, para poder fazer o que eu quisesse, para poder levar minha vida como eu achasse melhor. E agora, que tenho condições sociais, financeiras e psíquicas para tal, será obrigatório sentir melancolia?
Pois eu não troco a vida que tenho hoje pela vida que tinha aos 15 anos de idade. E muito menos aos 10, aos 7, aos 5 anos. "Adultecer", para mim, foi muito bom. Mesmo que tenha trazido responsabilidades, trouxe também desejos e prazeres.
Mas fico me perguntando que melancolia é essa, da busca pela madeleine de Proust, dessa evocação e convocação quase mórbida do passado.
Será que não é possível, mesmo a seres humanos adultos, que pagam suas contas e vivem em liberdade, escolherem seus destinos, ou ao menos a forma como vivem? O que os impede?
O que impede uma menina de vinte anos de começar (aqui nem cabe o re-começar)? O que impede um homem de 40 de voltar a andar pelas mesmas alamedas, ainda que elas - e ele - tenham mudado? O que impede que uma mãe zelosa, de vez em quando, saia para tomar um chopp com as amigas, veja um filme instigante e discuta filosofia? O que impede uma mulher ou um homem de fazer o que deseja e aquilo que lhe dá prazer, a qualquer momento, em qualquer tempo?
O que (n)os detém?
domingo, 29 de dezembro de 2013
Tarantino e o UFC
Faz pouco tempo, um amigo me chamou a atenção para o fato de eu gostar tanto de filmes do Tarantino, todos tão violentos. "A violência é tão fascinante / E nossas vidas são tão normais", eu poderia ter respondido, citando uma velha canção.
Kill Bill Vol. 1 é meu filme preferido e tenho mesmo uma atração por essa estética que Tarantino imprime em suas obras. Mas a violência que está em Tarantino, assim como a que está em Kubrick (Full Metal Jacket; A Clockwork Orange) é uma manifestação artística.
Essa violência está revestida - e recheada - de sentidos que transbordam a violência per se. Ela é veículo, manifestação que revela algo que a transcende, que ela própria denuncia, que é seu real motivo de existir: a reflexão sobre algo que está além, que pertence a outra esfera, que não se finda em si.
Não é que Tarantino ou Kubrick justifiquem a violência. Naquele, aliás, ela é "gratuita", exagerada, quase caricata. E é esse tom, borrado de ironia e cinismo (também presente em Kubrick), que leva o espectador a refletir. É isso que exerce atração em mim, é por isso que esse cinema é arte e não realidade: porque não é preciso ir "às vias de fato" - basta assistir aos filmes. Eles são um "universo protegido", uma ficção que termina quando a luz acende e voltamos para a vida real. Lá exercitamos desejos e emoções que não se podem transpor ou realizar na vida cotidiana.
Talvez seja essa mesma fascinação que sente quem assiste, tarde da noite, as lutas de UFC que agora a TV transmite. Não vou entrar no mérito de discutir se isso é ou não esporte. Mas o fato é que aquilo não é ficção, é realidade. O sangue, as dores, as fraturas, tudo se dá num corpo de carne e osso, de alguém que está ali arriscando sua própria integridade física de verdade.
E é nesse pequeno detalhe que, creio, mora a sordidez dessas lutas - e de quem as assiste. Ainda que os lutadores entrem no ringue espontaneamente, usando de livre arbítrio, simplesmente porque querem e sabendo dos riscos que correm.
Kill Bill Vol. 1 é meu filme preferido e tenho mesmo uma atração por essa estética que Tarantino imprime em suas obras. Mas a violência que está em Tarantino, assim como a que está em Kubrick (Full Metal Jacket; A Clockwork Orange) é uma manifestação artística.
Essa violência está revestida - e recheada - de sentidos que transbordam a violência per se. Ela é veículo, manifestação que revela algo que a transcende, que ela própria denuncia, que é seu real motivo de existir: a reflexão sobre algo que está além, que pertence a outra esfera, que não se finda em si.
Não é que Tarantino ou Kubrick justifiquem a violência. Naquele, aliás, ela é "gratuita", exagerada, quase caricata. E é esse tom, borrado de ironia e cinismo (também presente em Kubrick), que leva o espectador a refletir. É isso que exerce atração em mim, é por isso que esse cinema é arte e não realidade: porque não é preciso ir "às vias de fato" - basta assistir aos filmes. Eles são um "universo protegido", uma ficção que termina quando a luz acende e voltamos para a vida real. Lá exercitamos desejos e emoções que não se podem transpor ou realizar na vida cotidiana.
Talvez seja essa mesma fascinação que sente quem assiste, tarde da noite, as lutas de UFC que agora a TV transmite. Não vou entrar no mérito de discutir se isso é ou não esporte. Mas o fato é que aquilo não é ficção, é realidade. O sangue, as dores, as fraturas, tudo se dá num corpo de carne e osso, de alguém que está ali arriscando sua própria integridade física de verdade.
E é nesse pequeno detalhe que, creio, mora a sordidez dessas lutas - e de quem as assiste. Ainda que os lutadores entrem no ringue espontaneamente, usando de livre arbítrio, simplesmente porque querem e sabendo dos riscos que correm.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Talhe
A
busca do inesgotável
A
fonte que nunca secará
A
palavra que nunca cessará
Todas,
muitas, inúmeras, inequívocas, verborrágicas
Inexistentes
Até
que o silêncio tome conta da folha de papel
E
fique impresso na retina
Até
que haja um corte exato, preciso, profundo
E a
massa disforme de letras se transforme
Em
poesia
(2002/2013)
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Você me ouve, Major Tom?
"Quem quer passar além
do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"
É assim que acaba o famoso poema "Mar Português", de
Fernando Pessoa, que remete às conquistas marítimas do século XV. E foi nele
que pensei quando ontem, no noticiário, vi, maravilhada, que a nave Voyager
saiu do sistema solar.
Obviamente pensei também em "Space Oddity" (que tem esta versão alternativa, gravada in loco). E pensei em quanto o mundo é vasto e em quanto não temos a noção de nosso próprio tamanho. Sair do
Sistema Solar! É um feito muito maior do que atravessar o Atlântico, ou que
pisar na Lua. Ou talvez seja similar, porque eu não vivi no século XV nem em 1969
pra entender a grandeza dessas coisas que foram feitas naquele tempo durante aquele tempo.
Mais incrível é pensar que a Voyager conseguiu esse feito há mais
de um ano, mas só agora soube-se disso. Parece que o sinal de rádio demora 17
horas para viajar da Voyager à Terra.
É quase inacreditável saber que chegamos tão longe, mesmo com uma
mentalidade tão estreita que ainda quer guerra na Síria, que sustenta corrupção
e fome, que consome da Terra mais do que ela permite produzir.
Já não cabemos no mundo de Pessoa. As estrelas diferentes de Bowie
já não nos bastam. Viajamos rumo ao desconhecido.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Somos tão jovens
Legião Urbana foi a banda da minha adolescência. O
primeiro passo de muitas caminhadas musicais e literárias: Mônica gostava de
Bandeira e do Bauhaus? Fui ler o primeiro e ouvir os segundos. Na dúvida,
também fui ler a respeito da segunda.
A Legião ouvia Gang of Four antes da fama? Eu fui ouvir
também. Gravei o videoclipe de “Há tempos” e assistia pausando, anotando o que
via na estante que é cenário do clipe na esperança de ter contato com cada
detalhe daquele universo: Bob Dylan, Judy Garland, Fernando Pessoa... Aos 13, quando
o tempo livre era grande, ocupava-o tentando desvendar cada referência que
percebia nas músicas e na história da Legião, que conhecia de cor e salteado,
pelas fichas da Bizz, recortes de jornal e revista que eram guardados em pastas.
E foi conhecendo bem essa história que sábado entrei no
cinema para assistir “Somos tão jovens”, que conta a “pré-história” da Legião, ainda em Brasília, antes de eles partirem para o Rio, no começo dos 80. Aborto Elétrico, o Trovador Solitário, o começo do Capital Inicial. Filme para fã, conta “mais
do mesmo” do que eu já sabia, colando e editando rapidamente informações, com
poucas novidades. Mas depois da sessão, vi que o filme agradou não só a fãs como eu, mas também a quem não
tinha tanto tempo assim para gastar, ou para quem Legião não era a banda
favorita da adolescência.
Não é um grande filme, mas cumpre seu papel muito bem. A
reconstituição de época é bem-feita e as figuras daquela época estão ali:
Philippe Seabra, personagem, não precisa abrir a boca para ser reconhecido.
Philippe Seabra, ele mesmo, faz uma ponta como personalidade de Patos de Minas,
num momento de simpática diversão. Thiago Mendonça fica muito parecido com
Renato Russo, a caracterização dos personagens remete bastante às figuras
reais. Nicolau Villa-Lobos interpreta o pai. É um filme doce e singelo, sobre um tempo de certa inocência e sonho. E, no final, me
emocionou. É, sempre mais do mesmo... não era isso que você queria ouvir
(ver)?
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Liberdade obrigatória
A questão da homossexualidade tem tomado conta da agenda midiática. Contra e a favor, Feliciano, Bolsonaro, Wyllys, Mercury, Joelma. Entendo que as pessoas têm suas opiniões e crenças pessoais e que cada um faz o que quer da vida se isso não prejudicar o outro.
Essa é a razão pela qual pode, mas não é obrigatório, saltar de paraquedas, imitar a Madonna, praticar yoga, casar virgem, ouvir Ramones, pintar o cabelo, acreditar em Deus, ver novela, ser corinthiano, dar no primeiro encontro, cantar aquela canção do Roberto, rezar pra São Judas Tadeu, tocar violino, ler Paulo Coelho, ir ao cinema, torcer pro Fluminense, fazer plástica, andar de bicicleta, estudar Machado de Assis, usar lente de contato, beber café, fazer tatuagem, falar grego, preferir chocolate a guaraná, jogar Tetris. Essas - e muitas outras - são atividades individuais, que não interferem na vida alheia.
É por isso que eu acho absurda a celeuma que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo está causando. É uma questão de "foro íntimo", no sentido de que, se isso for previsto em lei, não obrigará as pessoas a obedecê-los. Quero dizer, se o casamento entre pessoas do mesmo sexo for previsto em lei, não significa que eu - que tenho um relacionamento de quase 20 anos com um homem que amo - vou ter que casar com outra mulher. Significa, apenas, que será permitido que duas mulheres ou dois homens se casem se eles assim desejarem. E não se trata de casamento religioso, mas civil. Porque o Estado é laico.
Não sou ingênua e sei que a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é simples assim e que envolve pressões fortes de grupos religiosos, preconceitos arraigados, medos inominados. Mas que eu saiba não há lei no Brasil que proíba a prática homossexual. Porque, é claro, para que não se volte à barbárie, a sociedade precisa de leis que a regulem e às quais cabe aos cidadãos obedecer.Ou seja, se for proibido, não pode.
Mas eu continuo achando que, dentro do universo das coisas que "pode", a única coisa que deve ser obrigatória na vida é a liberdade.
Essa é a razão pela qual pode, mas não é obrigatório, saltar de paraquedas, imitar a Madonna, praticar yoga, casar virgem, ouvir Ramones, pintar o cabelo, acreditar em Deus, ver novela, ser corinthiano, dar no primeiro encontro, cantar aquela canção do Roberto, rezar pra São Judas Tadeu, tocar violino, ler Paulo Coelho, ir ao cinema, torcer pro Fluminense, fazer plástica, andar de bicicleta, estudar Machado de Assis, usar lente de contato, beber café, fazer tatuagem, falar grego, preferir chocolate a guaraná, jogar Tetris. Essas - e muitas outras - são atividades individuais, que não interferem na vida alheia.
É por isso que eu acho absurda a celeuma que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo está causando. É uma questão de "foro íntimo", no sentido de que, se isso for previsto em lei, não obrigará as pessoas a obedecê-los. Quero dizer, se o casamento entre pessoas do mesmo sexo for previsto em lei, não significa que eu - que tenho um relacionamento de quase 20 anos com um homem que amo - vou ter que casar com outra mulher. Significa, apenas, que será permitido que duas mulheres ou dois homens se casem se eles assim desejarem. E não se trata de casamento religioso, mas civil. Porque o Estado é laico.
Não sou ingênua e sei que a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é simples assim e que envolve pressões fortes de grupos religiosos, preconceitos arraigados, medos inominados. Mas que eu saiba não há lei no Brasil que proíba a prática homossexual. Porque, é claro, para que não se volte à barbárie, a sociedade precisa de leis que a regulem e às quais cabe aos cidadãos obedecer.Ou seja, se for proibido, não pode.
Mas eu continuo achando que, dentro do universo das coisas que "pode", a única coisa que deve ser obrigatória na vida é a liberdade.
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