sábado, 9 de janeiro de 2016

Precisamos falar sobre a Coreia do Norte

A Coreia do Norte é um lugar muito, muito distante. Mas ao contrário de Tatooine ou Jakku, é um lugar real, onde vive parte dos 7 bilhões de pessoas da mesma espécie que eu. Então, sempre tive a sensação de que eu deveria conhecer a Coreia do Norte.

Mas pouco se fala sobre esse lugar. Quando era pequena, conheci as Malvinas, Irã, Iraque, Irlanda do Norte e muitos outros lugares por causa de notícias sobre guerra. Pré-adolescente, conheci Cuba por causa de sua ditadura. Mas nunca, nunca, vi reportagens suficientes sobre a Coreia do Norte para que entendesse e conhecesse mais aquele lugar. Ouvi o pai de Kevin Arnold falar sobre a Guerra da Coreia, mas pouco além disso.

Já adulta, entendi as razões pelas quais não tinha acesso a informações sobre a Coreia do Norte: sua ditadura, seu isolamento comercial, as implicações geográficas, econômicas, políticas e estratégicas de falar sobre esse lugar.

A mídia, em geral, quando fala da Coreia do Norte, fala de uma maneira jocosa, em tom de piada. Diz que o povo norte-coreano acredita que o hambúrguer foi inventado por Kim-Jong-Il; noticia que a Disney notificou Kim-Jong-un pela utilização pirata da imagem de Mickey Mouse; que o ditador declarou ter feito testes com a bomba H, mas que os analistas especializados duvidam.

E eu pergunto: e daí? O que isso quer dizer? Que tipo de conhecimento isso agrega? A Coreia do Norte é um país fechado por sua ditadura, e por isso temos poucas informações a respeito. Quase nada vaza (ou será que não é interessante para a grande mídia fazer um esforço para vazar e divulgar informações?). E, quanto mais mistério, mais eu fico intrigada.

Até que hoje, me deparei com esse vídeo:


Nele, a garota diz, emocionada, que a primeira coisa que devemos fazer para tentar ajudar é educar-se para aumentar a conscientização sobre a crise dos direitos humanos na Coreia do Norte. Eu ainda não sei nada a respeito. Mas estou incomodada o suficiente para ter uma certeza: Precisamos falar sobre a Coreia do Norte.




quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Uma década de tradição de Natal


Na minha família, não temos muitas tradições, objetos passados de mãe para filha, coisas que tenham história e raiz. Mas tem uma coisa que dá orgulho: o Natal.

Natal, normalmente, pelo que me dizem, é uma festa "obrigatória" de família; um momento em que as pessoas "precisam" ou "devem" ficar junto dos seus. Nas redes sociais, pipocam piadinhas de que Natal é tempo de desejar o melhor para gente que mal falou com você durante o ano todo; época de responder a perguntas indesejadas de parentes ausentes.

Na minha família, não é assim. A gente espera pelo Natal, a gente gosta de se reunir, de fazer farra, de cozinhar muito, de comer crústole (uma receita que passou da minha avó para minhas tias e que na nossa família só se come no Natal), de lavar muita louça, de cantar, de rezar ao redor da ceia, de receber os amigos queridos, de acolher os "desgarrados" sem festa, de jogar vídeogame, de ver fotos antigas, de receber o Papai Noel.

O Natal na minha família é tempo de abraços sinceros, risadas desbragadas, lágrimas emocionadas, orações, música e muita, muita gente junta. Mas, estranhamente, nunca pensei nisso como uma tradição.

Para mim, a verdadeira e singular tradição do Natal na minha família nasceu em 2004. Naquele ano - meu avô já havia morrido e não viveu para ver - minha tia Nori deu de presente para cada família um pequeno anjo de resina transparente para pendurar na árvore de Natal. Todas as árvores teriam aquele anjo igual dali em diante.

Não sei como, a ideia pegou. Em 2005, todo mundo apareceu na festa de natal com um presente para a árvore das famílias. Eu, que já era casada, tenho a sorte de ter todos os presentes, desde o primeiro, na minha árvore. Neste ano, a Gabi, que foi morar sozinha, distribuiu pela primeira vez o enfeite dela para as famílias. E foi lindo ver tudo se multiplicar mais uma vez.

Atualmente, como minha árvore de Natal é pequena - porque o apartamento é pequeno - só tenho esses enfeites nela. Bolinhas normais já foram abolidas.

Então, todos os anos, quando montamos a árvore de Natal, eu e o Darcio fazemos disso um ritual. Sentamos com calma, enfeitamos com carinho cada galho, lembrando da história de cada enfeite e de cada pessoa que nos presenteou com anjos, sininhos, nossas-senhoras, tamborzinhos, papais-noéis, bolinhas, estrelas, pinhas, mini-presépios e até um buda de tecido. Nesse momento, a gente pára para refletir o quanto somos felizes, e como é grande a nossa riqueza. É o momento do ano em que nos lembramos de cada pessoa que está ao nosso lado. Depois, com a árvore montada, rezamos. Em agradecimento ao ano que passou, para pedir por nós e por cada pessoa, representada naqueles presentes, para o ano que virá.

*A foto é da árvore aqui de casa, já com os enfeites recebidos neste ano.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade limitada não é liberdade

Adoraria começar o ano dizendo "Feliz 2015!". Mas hoje é dia 7 de janeiro e, parodiando uma velha música punk, "Paris is burning". Terroristas mataram 12 pessoas, entre elas, cartunistas do Charlie Hebdo.

Teoricamente, até onde eu entendo - porque eu NÃO consigo entender uma pessoa que mata a outra - essas pessoas foram mortas porque fizeram piada com a fé alheia. O que me deixa chocada é essa ânsia de calar o outro, metafórica e, neste caso, literalmente, apenas por discordar. Se você tem fé de verdade em uma coisa (uma pedra, um deus, um oráculo), você realmente acha que é relevante se alguém fizer uma piada sobre aquilo? Sua fé vai diminuir porque alguém fez uma piada a respeito? Se diminuir, é porque não é fé.

O patrulhamento ideológico esgarçado do "politicamente correto" sempre me irritou.  Não acho certo proibir o humorista X ou Y de chegar perto da celebridade A ou B porque ele fez uma piada sobre ela em seu programa. Se você se sentiu ofendido, busque seus direitos, a retratação pública, se for o caso. Mas proibir, manter afastado ou matar não creio que sejam saídas civilizadas.

Agora, a liberdade de expressão está posta em xeque mais uma vez. Censura é censura, desde o empastelamento de jornais de esquerda, como o Pasquim, até o assassinato das pessoas que trabalhavam no Charlie Hebdo.

E pior: vi gente dizendo "bem feito" para os cartunistas que perderam a vida. Vi gente dizendo: "está errado, mas os cartunistas procuraram sarna para se coçar quando publicaram a charge". Nesse caso, penso eu, não há espaço para "MAS". Não há adversativa possível no terreno da intolerância, do radicalismo. Intolerância e radicalismo  são a porta de entrada para o terror.

E, hoje, o terror ameaça gravemente a liberdade de expressão.

Atualização em 08/01/2015
Desde ontem, várias manifestações pelo mundo têm acontecido em solidariedade às vítimas da barbárie. O presidente francês pediu "unidade" à Nação. Acima de tudo, é preciso ter consciência de que não se pode entrar numa luta contra uma religião, um povo ou uma nacionalidade. Esse crime horrendo foi praticado por um grupo de pessoas, mas o grupo não representa o todo. Excluir e preconceituar também são ferramentas de um discurso de ódio. E, agora, tudo o que mais precisamos é amor.

domingo, 9 de novembro de 2014

As origens de uma escolha

Assisto na TV um programa sobre os 25 anos da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Na minha memória, a queda aconteceu na faixa dos 14 anos - que completei em maio de 90. Tenho um especial carinho por esse assunto. Ele é a primeira razão que registro para que eu conscientemente escolhesse minha profissão.

Por razões quase pueris, eu acompanhava, dentro dos limites da minha pouca idade, muitos assuntos de política externa. Primeiro, a política de Thatcher, de quem ouvi falar pela primeira vez quando Diana se casou com Charles. Eu tinha cinco anos e achei impressionante que houvesse uma princesa de verdade, com um vestido tão lindo e imenso; e uma rainha de verdade, com coroa e manto. Depois, os recortes de jornal sobre o IRA, por causa das músicas do U2. Então, vieram a Perestroika, a Glasnost e a Queda do Muro.

Então, em 1989, eu vi Silio Boccanera e um jovem Pedro Bial cobrindo o que identifiquei  como realmente um momento histórico; um misto de festa e destruição.  Pela primeira vez, em frente à TV, eu sabia que aquilo era "como quando o homem pisou na Lua"; eu sentia ser contemporânea de um momento histórico.

E fiquei fascinada. Fascinada com a possibilidade de ter uma profissão que registrava a matéria-prima para o que seria História; fascinada com a ideia de estar ali tão profundamente ligada ao presente; fascinada com a ideia de ouvir histórias de pessoas que se tornariam os relatos da História; fascinada por ajudar a colocar um tijolo para construir o que permaneceria para sempre; e fascinada com o paradoxo de que, naquela ocasião em particular, "colocar o tijolo" era exatamente mostrar a destruição concreta e real de uma cicatriz que separava um país.

Para mim, na prática, o jornalismo não aconteceu de um jeito tão romântico, nem aventureiro, nem tão ingênuo assim. Desde cedo fui para a área corporativa, cuidar da comunicação que empresas precisam estabelecer com seus clientes, colaboradores, parceiros, fornecedores e com o mercado em geral. Gosto do que faço, gosto do meu trabalho cotidiano.

Mas sempre que penso ou vejo algo sobre a Queda do Muro de Berlim, me sinto de novo com 14 anos; me lembro com carinho e ânimo da beleza, do sonho e da aventura que me fizeram pensar, pela primeira vez, em fazer a escolha que fiz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Além da razão

Terminei neste fim de semana de ler "Morangos Mofados" (Caio Fernando Abreu). A primeira vez que li esse livro foi em 1996 e, na época, ele não me pareceu nada demais. Mas, agora, na releitura, ele me "pegou" e achei-o muito mais incrível que da primeira vez.

Foi uma leitura de (re)descoberta, daquelas que a gente faz aos poucos, a conta-gotas, para que o livro não acabe. Fiquei "morando" no livro, como disse um amigo. Fiquei querendo decorar os trechos, para depois me lembrar deles, para, de alguma forma, represar aquele encantamento, aquele primeiro impacto, aquele maravilhamento que a leitura me causou.

Fiquei procurando razões racionais. A voz narrativa de "Morangos Mofados" é muito poderosa. A literatura confessional cola o narrador ao ouvido do leitor. Eles trocam segredos, confissões, cartas. Eles se identificam nas fragilidades, nas transgressões, nos desejos, nos sonhos irrealizados. Mas isso é o racional.

O que me aconteceu - e foi inédito numa releitura - foi esse livro me pegar bem pelas entranhas.Foi ele ter-me tocado a alma, foi ter-me agitado o espírito e acendido o olhar para recantos algo adormecidos.

Ali, escritas, experiências tão diversas das minhas experiências, de repente faziam um sentido transcendente para mim. De repente significavam algo que eu ainda não consegui decifrar completamente.

"Morangos Mofados" me pegou de assalto e eu ainda não sei bem o porquê. Ele tocou em mim em algo para além das explicações racionais. Por isso, talvez, deem a isso o nome de arte. Foi para mim uma epifania. Como dizem os franceses, étonnant.

sábado, 13 de setembro de 2014

Cada livro tem duas histórias

Fui desafiada por amigos leitores compulsivos e vorazes a participar de uma troca de livros. O termo "desafio" é por minha conta. Na verdade, é só uma brincadeira, um convite, um jeito de trocar paixões: livros que não fazem mais sentido para você e podem fazer sentido para outra pessoa.  E esse "sentido" pode ter várias interpretações: pode ser algo que você estudou e já não estuda mais, uma edição antiga que você já atualizou, um livro que já não te diz mais nada.

Olhei as estantes em busca de algo. E foi aí que me descobri possessiva e ciumenta (não que eu não soubesse dessa minha característica antes, mas ficou isso patente naquele momento). E foi aí que descobri que, para mim, cada livro não conta apenas uma história, conta duas: a história que nele está escrita e a história dele comigo.

Comecei pelo óbvio: livros que não faziam mais sentido para mim, que ocupavam lugar de outros que poderiam chegar. E constatei, atônita, que cada livro tem um lugar nas estantes que o acomoda tão bem que dali ele não precisa ser retirado mais. Mas venci esse primeiro sentimento e tomei a iniciativa de tirá-los dali.

Passei os olhos: um por um, contavam uma história de um pedaço da minha vida. O primeiro livro que li sem figuras, ainda criança, com 6 anos de idade; o livro que foi assunto da minha primeira resenha numa revista de cultura; a pequena coleção dos "Livros do Mal", que revelou escritores que admiro muito, como Daniel Galera; livros que trouxe de viagens que fiz; livros que li na graduação e que marcaram minha vida; livros que li para a minha dissertação; livros que arrematei de uma biblioteca particular que doara volumes para ajudar uma instituição beneficente; livros que ainda não li e livros que já reli muitas vezes.

Descobri, com pasmo, que conheço essa segunda história de quase todos os livros de minha estante. Descobri que eles contam partes da minha vida que não estão em diários e que achei que estariam esquecidas, como a grande parte das histórias cotidianas, mas não estão. Descobri que seria muito difícil me apartar deles.

Foi uma viagem afetiva. E, ao final dela, consegui selecionar cinco. Cinco livros que agora terão três histórias: a que trazem impressa, a minha e a de quem os quiser receber.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Da porta para fora, silêncio

Às vezes, tem tanta coisa acontecendo dentro da gente que é preciso calar o exterior para ouvir o íntimo.
Às vezes, o mundo interno impõe tantos desafios que o mundo externo fica simplesmente empalidecido.
Às vezes, as letras minúsculas se acumulam tanto que torna-se maiúsculo ordená-las.
Às vezes, a superfície é plácida porque não enxergamos o fundo.
Às vezes, é preciso reprogramar o código-fonte.
Às vezes, a gente não sabe por onde começar.